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17 de Janeiro de 2018

Virada na Mercur teve fim dos cargos de chefia e dos personagens infantis

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O início da virada da Mercur está fechando 10 anos. Com sede em Santa Cruz do Sul, a empresa foi criada em 1924 para buscar na borracha as soluções para problemas enfrentados na economia local, já que os fundadores não precisavam da renda.

Jorge Hoelzel é da terceira geração da família, conduz o negócio hoje e disse que esta origem foi um dos motivos para a guinada iniciada em 2007. Tudo começou quando se questionou o que aconteceria com o mundo se a Mercur acabasse. A resposta, até então, era: nada.

— Éramos muito bons no econômico-financeiro, mas precisávamos olhar para os pilares social e ambiental. Os três formam a sustentabilidade, conceito que tem ficado superficial. Há empresas que pintam parte do produto de verde para cobrar mais lá no final — explica o empresário, que trouxe para a empresa valores que segue na vida pessoal.

A coluna foi recebida na fábrica em Santa Cruz do Sul, que tem cheiro de borracha e traz a memória do material escolar recém comprado. As seis ações mais emblemáticas da Mercur:

1 - Não vender mais para indústria do fumo

Decisão delicada. A indústria do fumo é forte em Santa Cruz do Sul e a Mercur havia desenvolvido ao longo dos anos as esteiras de borracha não tóxicas por onde o fumo é transportado.

— Ganhar dinheiro com algo que manda as pessoas para o hospital - Jorge Hoelzel diz que foi esse o pensamento que provocou a decisão, que foi comunicada aos clientes com mais de um ano de antecedência.

Também está na estratégia da Mercur não negociar com indústrias de armas, bebidas, jogos de azar, agrotóxicos ou que maltratem animais.

2 - Sem personagens infantis

A Mercur foi ouvir pedagogos e perguntou se a empresa prejudicava a educação de alguma forma. Ouviu que os materiais escolares com personagens infantis dispersavam os estudantes e provocavam uma competição não saudável e, pior, desfavorável para crianças de baixa renda. A empresa então rompeu os contratos com as licenciadoras.

— Tudo bem a criança ter o brinquedo, mas nos conscientizamos que o personagem não deve estar no material da escola — explica o empresário.

3 - Diversidade

Com o lucro, a Mercur fazia caridade na cidade. Resolveram mudar isso. Ainda com ajuda dos pedagogos, identificaram que a abertura das escolas para pessoas com deficiência exigia novos materiais.

Criaram o projeto Diversidade, onde observam as necessidades destes estudantes e criam soluções. Uma borracha em volta de um lápis ajuda quem não consegue fechar a mão o suficiente. Um peso para o pulso, por exemplo, permite que um aluno que treme possa escrever.

4 - Sem chefes e salários parelhos

Foram eliminados cargos de chefia, como gerentes e diretores. Há grupos de discussão que são coordenados pelas pessoas que mais entendem do assunto em questão. Também há um trabalho para reduzir a diferença entre o menor e o maior salário.

5 - Emissão de gases

Caiu pela metade em sete anos. Entre as medidas, a Mercur trocou o plástico pelo papelão, reduziu o tamanho das embalagens e cortou drasticamente as importações da Ásia. Chamou os transportadores e conduziu um trabalho para que hoje todos plantem árvores para compensar as emissões feitas nos fretes para a Mercur.

6 - Borracha natural

Este é o xodó de Jorge Hoelzel. A empresa compra borracha natural dos seringueiros do Pará e do Acre. Dá qualidade de vida para eles e estimula que preservem a floresta, evitando o desmatamento. O preço é estabelecido pelo custo dos seringueiros e não pelo mercado.

— Um amigo me disse para fundar uma ONG. Eu não quero uma ONG, quero tocar meu negócio de um jeito diferente — finaliza Hoelzel.

Mas a conta fecha?

A parte econômico-financeira ficou ainda mais forte, garante o empresário que conduz a Mercur.

— Mais pessoas passaram a decidir como é feito o gasto na empresa. Tudo ficou mais consciente e começou a sobrar dinheiro. Mesmo como faturamento em queda, a produtividade cresceu e o lucro aumentou.

Fonte: Gaúcha ZH (link para o site).

 

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