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23 de Novembro de 2018

"Todos podem ser agentes de transformação"

Conversamos com a Raquel Franzim, do Instituto Alana, sobre transformações na Educação

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#PraCegoVer A foto é um retrato de Raquel, que está em frente a uma estante de livros. Ela usa uma blusa preta estampada de flores, tem cabelos escuros e longos e está sorrindo

Raquel é educadora desde 1995, atuou como professora, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Dedicou 14 anos ao ensino público na rede municipal da cidade de São Paulo e, desde 2015, é assessora pedagógica do Instituto Alana e co-coordena o Programa Escolas Transformadoras do Brasil com a Ashoka. 

No dia 04 de dezembro ela vai estar no Laboratório de Inovação Social da Mercur para uma para uma roda de conversa sobre Escolas Transformadoras com colaboradores e também em um espaço aberto à comunidade. Essa entrevista conta um pouquinho sobre como agentes de todo o País estão transformando a educação. Confira:

Como funciona o Programa Escolas Transformadoras no Brasil?

O Programa Escolas Transformadoras é uma iniciativa global da Ashoka lançada em 2015 em correalização com o Instituto Alana. O Programa reconhece, conecta e engaja escolas e ativadores (a comunidade ativadora do programa, explicada abaixo) para propagar uma visão de que a educação é um espaço privilegiado para a educação de pessoas com potencial positivo de transformação. O reconhecimento de escolas e dos ativadores é apenas uma parte do Programa. Promovemos encontros, eventos, co-construímos publicações e parcerias com órgãos públicos, faculdades de educação e veículos de imprensa para que a visão de uma educação transformadora seja tão valorizada quanto a visão de má escola mais voltada para a aprendizagem de leitura e escrita, por exemplo.

Quantas são as Escolas Transformadoras no País? Há alguma no Rio Grande do Sul? Se sim, em quais cidades?

São 21 escolas reconhecidas no Brasil (mais de 300 no mundo). No Rio Grande do Sul reconhecemos em 2015 a escola Amigos do Verde, em Porto Alegre.

São oferecidos materiais, momentos de aprendizagem, estudos a essas escolas? Elas estão conectadas de alguma maneira para troca de experiências?

As oportunidades criadas pelo Programa sempre buscam não apenas conectar e potencializar os processos das escolas participantes do Programa, mas, principalmente, estabelecer conexão com redes públicas, com veículos de comunicação ou faculdades de educação em que estas conversas ganhem escala e novos públicos. Entre as escolas participantes, há muita autonomia na realização de encontros de intercâmbio, trocas de materiais e experiências. este ano, ocorreu um intercâmbio entre estudantes do Instituto Federal do Paraná Campus Jacarezinho na Escola Estadual Alan Pinho Tabosa no Ceará. Os estudantes puderam conhecer como os currículos e o ensino técnico acontecem em cada escola e trocar saberes sobre projetos em comum.

Como é estruturada a comunidade ativadora do Programa?

O programa Escolas Transformadoras é composto por uma comunidade formada por pessoas de diversas áreas, que possuem um interesse comum: mudar a conversa sobre educação. Integram esse grupo equipes de escolas, jornalistas, empreendedores sociais reconhecidos pela Ashoka, empresários, professores universitários, representantes do poder público e do terceiro setor e artistas que, por meio de suas ações, contribuem para a construção de um novo marco para a educação brasileira.

Como essa comunidade ativadora entende a criança e o jovem em desenvolvimento?

Apesar de ser composta por ativadores muito diversos, há em comum nessa comunidade uma crença no potencial das crianças e jovens. Potencial para aprender, se desenvolver e transformar sua própria vida e de sua comunidade. É uma crença que todos podem ser agentes de transformação.

Que ações/atividades uma escola precisa para ser reconhecida uma Escola Transformadora?

As escolas reconhecidas pelo Programa passaram por um processo longo de reconhecimento constituído por pesquisa de materiais, autoavaliação, conversas por skype, visita à escola pela equipe do Programa, pré-painel com a equipe do Programa de outros países e painel com convidados do Programa. Em todo o processo, observamos se a escola nutre uma visão de que todos podem ser agentes de transformação, o que vai muito além de uma ação ou outro projeto específico. Em todos os âmbitos da escola (gestão, gestão do tempo, currículo, espaço, relações sociais, relação com a comunidade escolar e com atores da comunidade do entorno etc) verificamos se há o cultivo e a aprendizagem de valores que chamamos de transformadores como empatia, protagonismo, trabalho em equipe e criatividade.

O que são competências consideradas transformadoras?

São valores que consideramos ser essenciais serem aprendidos e cultivados durante a vida e a educação de uma pessoa. Transformar deve ser um compromisso ético e estético de um grupo de pessoas com o mundo, com o planeta, com as pessoas. A transformação que acreditamos está ancorada na empatia, no protagonismo, na criatividade e no trabalho em equipe e outros valores como os direitos humanos, a diversidade e inclusão de pessoas e a educação como um espaço de redução das desigualdades e não, promotora de desigualdades e competição.

Como essas escolas conciliam necessidades de alunos (sedentos por transformação) e professores (às vezes resistentes à mudança)? É um desafio?

Conciliar é uma palavra boa! A resistência à mudança não é apenas dos educadores, muitas vezes vem das famílias, da sociedade, de grupos políticos ou dos órgãos reguladores da própria educação. Essas escolas revelam que a transformação da educação acontece não necessariamente com um antes - é especialmente no durante. Ou seja, são propostas político pedagógicas em que os educadores e as famílias também se sentem engajados e protagonistas. É uma educação que não deixa ninguém para trás, até os educadores que historicamente vem recebendo uma formação incompatível com as urgências e necessidades do nosso tempo.

Como você percebe o interesse/envolvimento de uma empresa na busca por transformações na Educação e na comunidade?

O Programa Escolas Transformadoras acredita que qualquer transformação na educação e na própria sociedade não ocorre apenas por um setor ou ator social. Entendemos a transformação positiva da educação e da sociedade como algo sistêmico e pactuado socialmente. Portanto, empresas, a sociedade civil, os veículos de comunicação, todos e todas, são co-responsáveis pela transformação. Isso se mostra na prática como um desafio já que tensões e conflitos de interesse são inerentes entre setores distintos. É comum que no campo educacional se olhe com certa desconfiança do campo dos negócios porque historicamente a educação já foi e é muitas vezes influenciada apenas por interesses financeiros. No entanto, não se pode desconsiderar que a criança, o jovem, o adulto, seja ele educador ou não, as famílias, todos estão na sociedade e muitas vezes, são os trabalhadores dessas empresas. As empresas são feitas por pessoas também! Não podemos esquecer. Por isso, empresas tem um grande compromisso ético na compreensão das necessidades da pessoa humana, para além da produtividade e do retorno financeiro, mas nas necessidades humanas dos trabalhadores que vai desde seu desenvolvimento e educação pessoal e profissional, até mesmo, na participação social e política.

Uma educação transformadora pode ser chamada também de uma educação para a vida?

Uma educação transformadora precisa estar fortemente vinculada à vida! Isso é lindo e necessário. A educação transformadora é uma educação de vínculo com o outro, de vínculo e compromisso com a vida e suas necessidades de transformação (ou porque não, a depender do contexto, de conservação e resistência também).

 Você percebe que as propostas pedagógicas nessas escolas são mais flexíveis e envolventes? Pode citar um exemplo?

Sim, são propostas que testam muitos tipos de arranjos educativos. E uma curiosidade, são propostas que assumem riscos, que enfrentam medos e quase sempre ousam. São criativas! Quero citar um exemplo da escola Amigos do Verde, em Porto Alegre. Essa escola foi criada há pelo menos 30 anos. É uma escola particular e que realiza um trabalho de conexão e intercâmbio muito importante com escolas públicas também. Mas veja, há 30 anos, a escola iniciou uma proposta político pedagógica em que a razão e emoção andavam lado a lado dentro da escola. Isso ainda é muito, muito transformador! Há ainda uma visão social forte que escola é o lugar apenas onde estudantes aprendem apenas português, matemática, ciências. E tudo isso, desconectado da vida, das emoções, das relações humanas. A Amigos do Verde transforma e se transforma constantemente sua prática para religar essas dimensões da vida: cognição, emoções, corpo, espiritualidade e o cuidado com o mundo em que vivemos, essa casa coletiva chamada Terra. Para nós, essa visão de educação deveria ser um direito para todas as crianças, jovens e adultos, independente de estudarem ou não na Amigos do Verde. Por isso, espalhamos essas histórias e trajetórias para que outras escolas, famílias e órgãos da educação desejem esse tipo de educação.

A série "Corações e Mentes" traz muitas inspirações para a Educação. De que maneira as pessoas que assistiram a série e ficaram interessadas em participar, propagar, ajudar a levar essas novas ideias às suas comunidades podem agir?

A série é o próprio convite para agir! Com as histórias dessas pessoas, pessoas como eu, como você, pessoas comuns, queremos que cada um olhe para si e encontre o seu caminho de transformação. Que cada escola perceba seu caminho e que não há receitas. Mas há valores que podem nos guiar por longos caminhos. Não há transformação da sociedade sem uma profunda transformação interior, dentro de cada um. Não é fácil, pois às vezes, nos deparamos com preconceitos, violências, injustiças e desigualdades. Precisamos lidar com a memória da nossa gente e de muito que apagamos historicamente ou queremos apagar. Todas as escolas precisaram se deparar com isso também. Precisaram assumir o incômodo e sair da zona de conforto. Mas essa potente transformação interior  exterior apresentada na série é apenas uma mostra de que isso já está espalhado na sociedade e pode ser o 'motorzinho', essa potência que nos leva a se reconectar com o outro, com o planeta e com a natureza em uma vida mais justa para cada um e todo mundo.

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A imagem mostra Fabrício, um jovem negro com olhar muito concentrado e sobre a imagem, a seguinte frase dita por ele: "A sabedoria você aprende não só com a mente, você aprende com todo o corpo". Fabrício é aluno da escola Dendê da Serra, participante do Programa Escolas Transformadoras que é retratada na série Corações e Mentes

 

 

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