Ser local no mundo globalizado, como assim? - Mercur

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Ser local no mundo globalizado, como assim?

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01/03/2019

Ser local no mundo globalizado, como assim?

Porquê a Mercur, indústria de produtos e serviços para Saúde e Educação, reduziu importações e exportações para se relacionar e investir mais energia nas comunidades e ser local

Qual o impacto de um produto fabricado na China que cruza os oceanos para ser vendido no Brasil por R$ 5? Você já parou para pensar sobre isso? Nos modelos de produção e consumo vigentes na economia, por vezes somos direcionados a pensar que inovação e futuro estão diretamente relacionados com facilidade de acesso à tecnologia e ao que queremos ou precisamos no momento. Melhor ainda se custar pouco.

Algumas dessas coisas, na verdade, custam muito. É por isso que inovação na indústria hoje é mais que realidade virtual, impressão 3D, smart grid ou big data. O futuro pode até ser tecnológico, mas apesar de toda a sofisticação das super novidades – que surgem para incentivar o consumo desenfreado de objetos que se tornam obsoletos com muita pressa – há um lado que nunca aparece nas notícias sobre inovação.

O lado que custa caro porque causa impactos como a falta de alimentos, moradia e emprego nas cidades. Causa poluição, desigualdade social, exploração indevida e esgotamento em um planeta com recursos escassos e necessidades humanas ilimitadas. Então, por mais que o futuro exista no imaginário como um lugar todo feito de inox e cheio de botões, nós sempre precisaremos do básico: comida, água, moradia, saneamento básico, renda, ar puro para respirar e também das relações humanas. A humanidade sempre vai precisar de algum bem-estar, mas como rever processos e encontrar um caminho que minimize impactos e promova isso?

Conversamos com Jorge Hoelzel, facilitador da Mercur, indústria que desenvolve produtos e serviços nas áreas de Saúde e Educação e hoje tem como uma de suas decisões estratégicas substituir importações, valorizando a produção local. Os indicadores comparativos da empresa no período de 2016/2017 apontam uma queda em 32% das importações e aumento em 6% das compras do mercado interno.

A ideia da Mercur – que há cerca de uma década iniciou um processo de transição em seu modelo de atuação – é valorizar e incentivar a produção e economia locais, proporcionar geração de empregos, espaços de aprendizagem aos trabalhadores, criar novas ocupações, produtos e serviços que agreguem valor à cadeia produtiva. Em junho de 2019, a empresa completará 95 anos e está situada em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Segundo Hoelzel, a redução das exportações e importações tem a ver com a possibilidade de investir mais energia nas comunidades, onde se está mais próximo física e culturalmente. Confira a conversa na íntegra:

1) O compromisso institucional da Mercur hoje é “Unir pessoas e organizações para construir encaminhamentos e criar soluções sustentáveis”. Como se chegou a esse denominador?

Quando estabelecemos como campo de atuação da Mercur o Bem-Estar e como propósito da empresa a participação da construção de “um mundo de um jeito bom para todo o mundo”, percebemos que precisaríamos afirmar o compromisso de estar com as pessoas e fazer COM elas tudo o que dissesse respeito a elas. Entendemos que as pessoas precisam participar ativamente da construção do mundo em que querem viver, e que a diversidade de conhecimentos e saberes são fundamentais para que as soluções possam considerar o máximo possível de questões humanas, econômicas e socioambientais. Afinal, para se construir o mundo de um jeito bom para todo o mundo é fundamental que todo o mundo participe. Aplicando na prática este conceito, nos relacionamos com grupos de pessoas para, a partir de suas necessidades, cocriar produtos e serviços que tenham valor para todos, considerando nossa relação com o outro e com o meio em que vivemos. A partir do relacionamento construído cocriamos alguns produtos, como por exemplo o fixador de mão em tira que possibilita a independência e favorece a autonomia de pessoas que tenham dificuldade de segurar objetos.

Um menino está sentado e come bananas picadas. Ele segura um garfo que está envolvido por um Engrossador e um Fixador em Tira, que são exemplos de produtos citados por Jorge

2) Ser cada vez mais local tem relação com esse compromisso?

Sim, porque cada local tem suas características únicas. Então estar com as pessoas do local onde se atua olhando para o desenvolvimento das suas potencialidades e buscando despertar seu protagonismo fortalece a sensação de bem-estar e as conexões que geram impactos positivos na sociedade.

3) Desde a virada de chave, como vocês chamam o início das mudanças na forma de atuação, a empresa reduziu importações e exportações? Tem a ver com essa questão?

A redução das exportações e importações tem a ver com a possibilidade de investir mais energia nas comunidades locais, onde se está mais próximo física e culturalmente, buscando atender a questões mais íntimas do local. Além disso, entendemos que as emissões de gases de efeito estufa nestas operações prejudicam demais o meio ambiente, a menos que um produto ou serviço seja muito necessário e não possa ser obtido de outra forma.

4) A produção hoje é dependente apenas de matérias-primas locais/nacionais?

Não e nem será. Em regra geral, no mundo globalizado em que vivemos, os países são muito dependentes de matérias primas importadas, uma vez que cada local se especializa naquilo que pode ser mais competitivo, assim como materiais que não existem em outras regiões. O sistema de vida e de consumo globalizado que implantamos no mundo começa a se mostrar inviável para dar conta das questões de sustentação humanas. econômica e socioambientais. O que tentamos fazer é encontrar alternativas mais sustentáveis. Por exemplo, na composição do giz de cera substituímos a parafina por cera vegetal e o produto passou de 40% para 80% renovável. Substituímos também várias embalagens plásticas por embalagens de papelão.

5) Investir em relações produtivas locais, que sejam mais justas, é uma forma de impulsionar a geração de trabalho/renda e por consequência a redistribuição de riquezas e a redução de desigualdades sociais?

Acreditamos que sim. Ao se investir em relações produtivas locais se promove o desenvolvimento local em todas as suas instâncias. Isso também diminui sensivelmente os impactos negativos das externalidades, que são situações desconhecidas até o momento ou desconsideradas, em função do olhar equivocado de que os ganhos econômico financeiros resolvem qualquer problema.

6) Não há crescimento infinito num mundo de recursos finitos. Essa busca da Mercur por equilíbrio e por criar soluções sustentáveis – que acontece há cerca de uma década – emergiu do colegiado? Teve/tem participação da comunidade/rede?

A inquietude de se caminhar para um destino desconhecido, desconsiderando questões vitais para todo o planeta, além dos próprios seres humanos, emergiu dos acionistas, a partir de cursos, leituras e vivências focadas na ampliação da consciência. Depois foi se constituindo como rede a partir de uma teia de relacionamentos dos colaboradores da empresa com parceiros que compartilham os mesmos conceitos, considerando sempre que todos são livres para fazerem suas escolhas de acordo com o seu conhecimento e seu grau de consciência.

7) De alguma forma os Direcionamentos da empresa traduzem os esforços para se aproximar do compromisso institucional. Você pode falar um pouquinho sobre eles?

Nossos Direcionamentos são decisões estratégicas que nasceram a partir da nossa visão de mundo com relação aos impactos negativos que a nossa existência, enquanto industria, causa para a vida no planeta. São questões do dia a dia da nossa operação que precisam ser solucionadas para que possamos realmente sustentar nosso negócio a longo prazo causando o mínimo impacto negativo possível. Cada Direcionamento traz o seu desafio particular sobre as questões humanas econômicas e socioambientais, e, por isso, fazem parte do nosso trabalho e acompanhamento diário.

8) Como é feita a união dessas pessoas e organizações que estão buscando transformar a realidade com soluções sustentáveis? Quais os canais de relacionamento que geram estes encontros?

Na verdade, reunir as pessoas envolvidas nos diversos assuntos que são tratados na empresa é uma prática que foi tomando forma por entendermos que qualquer decisão só se legitima a partir da participação de todas as pessoas que são impactadas de alguma forma com esta decisão. Assim, buscamos utilizar todos os canais que permitam as pessoas se expressarem. Reuniões presenciais, virtuais, rodas de conversas, oficinas, espaços de aprendizagem que acontecem na empresa, etc. Assim como nossos canais de comunicação: site, Loja Mercur, Facebook, LinkedIn e YouTube.

9) A Mercur está há 95 anos na mesma cidade e emprega cerca de 700 pessoas. O tempo médio de permanência na empresa é de 20 anos, o que é raro no mercado de trabalho. É valioso, para a empresa, este relacionamento?

Sim. Acreditamos em relacionamentos que possam se sustentar em vínculos de transparência e confiança, em que cada pessoa é considerada como um indivíduo que compartilha sua jornada com outros indivíduos a partir daquilo que tem de melhor a contribuir.

Duas colaboradoras estão sentadas ao redor de uma mesa, colocando borrachas de apagar nas embalagens. Sobre a mesa há uma pilha de Borrachas Lado B

10) E. F. Schumacher, no livro ‘O negócio é ser pequeno’, um estudo de economia que leva em conta as pessoas, diz que para construir um sistema de produção que não violente a natureza e um tipo de sociedade que não mutile o homem, é importante praticar quatro virtudes cardinais: prudência, justiça, fortitude e temperança. A Mercur se identifica com a ideia de desafiar a economia de grande escala – valorizando as pessoas e o meio ambiente – para mostrar que é possível fazer de outra maneira?

Este ainda é um campo delicado. Temos construído ferramentas para buscar viabilizar este desafio, que é vital pelo nosso ponto de vista. Porém, precisamos considerar que a nossa cultura está moldada para o consumo por impulso e não para suprir necessidades. O que faz com que valorizemos e desvalorizemos características e situações de obtenção de produtos e serviços a partir de impulsos desconectados da realidade de sustentabilidade da vida no planeta.

11) Falando em momentos de aprendizagem, a Educação é um tema muito importante para a Mercur. Promover espaços de aprendizagem aos colaboradores e à comunidade auxilia nesse compromisso de ser local?

Promover espaços de aprendizagem para os colaboradores é a forma que encontramos/construímos para que o conhecimento técnico e humano possa circular na empresa e também ser compartilhado com a comunidade, possibilitando que a cultura local seja impactada pela empresa e vice-versa. Temos um Laboratório de Inovação Social, aberto à comunidade, que foi pensado e constituído com este objetivo. Na Mercur vivenciamos espaços de aprendizagens, momentos que criamos para inserir a educação para a sustentabilidade e a educação para a vida no cotidiano dos colaboradores. Os espaços acontecem através de oficinas, rodas de conversa, palestras, filmes e outras possibilidades que possam estimular as pessoas a criar e a vivenciar, juntas, diferentes momentos em suas vidas. Um desses espaços é o Plano de Educação, em que um grupo de colaboradores se reúne a cada mês para participar de 40 horas de compartilhamento de conhecimentos e estudos. No período do Plano de Educação, os colaboradores vivenciam oficinas de Consumo Consciente e visitas à fábrica, à Cooperativa de Catadores e Recicladores de Santa Cruz do Sul (Coomcat) e à Fundação de Proteção Ambiental de Santa Cruz do Sul (Fupasc).

Colaboradores da empresa estão reunidos no Laboratório de Inovação Social da Mercur para uma atividade. Eles estão sentados em cadeiras coloridas que formam um grande círculo

12) De que forma o conhecimento, pesquisas, tendências, influenciam a tomada de decisões da Mercur sobre as ações já encaminhadas hoje e o que se quer para o futuro?

Este conhecimento é fundamental para a Mercur. Construímos a Visão 2050 da empresa a partir de uma análise importante, tanto de questões atuais da nossa vida, como de tendências de questões sociais, ambientais, econômicas e culturais. Um desafio que temos é compreender e comunicar sobre o atendimento a especificações, de produtos e serviços que, muitas vezes, não são viáveis se considerarmos as externalidades humanas, econômicas e socioambientais. Em outras palavras, nós seres humanos/consumidores, temos dificuldade de entender que precisamos mudar hábitos culturais se quisermos realmente sustentar a vida no planeta a longo prazo. É importante que mudemos nosso sistema de vida enquanto indivíduos. Não podemos esperar que o mundo dos negócios, por mais boa intenção que tenha, se responsabilize por sustentar a vida no planeta. Somos todos responsáveis. Esta responsabilidade é da sociedade e do indivíduo como ponto de partida.

A Mercur é uma indústria brasileira presente nas áreas de Saúde e Educação que se propõe a atuar em função das pessoas. Sua forma de trabalho é centrada em atender necessidades específicas para a promoção de autonomia, bem-estar social e ambiental. Em 2019 completa 95 anos e, desde 2008, assumiu o compromisso institucional de unir pessoas e organizações para construir encaminhamentos e criar soluções sustentáveis para o mundo. Parte dessa história, chamada de virada de chave, está registrada no livro Narrativas Mercur: práticas de uma gestão em constante construção, publicado em 2018 e disponível para download gratuito. Atualmente a Mercur tem operado a partir de duas unidades industriais localizadas na cidade de Santa Cruz do Sul (RS) e de uma ampla rede de distribuidores e revendedores em todo o território nacional. Conta com cerca de 700 colaboradores e uma rede colaborativa que se fortalece na cocriação de produtos disponíveis na Loja Mercur e em lojas de todo o País. Além de produtos clássicos como a Borracha de Apagar Record e a Bolsa Para Água Quente, criados há 80 anos, a Mercur produz giz de cera, colas, órteses, muletas e recursos para auxiliar nas atividades de vida diária como engrossador de talheres e pulseira de peso para quem tem movimentos involuntários de membros superiores.

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Engaje Comunicação Inteligente
Fernanda Dreier
(51) 3378.1136
mercur@engajecomunicacao.com 

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